A energia é um daqueles conceitos mais ouvidos, maltratados e usados para explicar princípios de acção terapêutica e diagnóstico, dentro do leque de disciplinas e pseudo-ciências que compõe a vasta dimensão das terapias não convencionais.

No contexto terapêutico a energia passou a fazer parte do vocabulário obrigatório de qualquer pessoa, paciente ou terapeuta do ramo da saúde não convencional, sendo usada quase como a flauta do encantador de serpentes.

É uma espécie de panaceia de todos os males, promessa para todas as curas, e explicação de tudo e de nada na decoração central de uma montra de maus produtos.

Isto acontece por três ordens de razão:

A primeira tem a ver coma inexistência de formação adequada em função de um divorcio e distanciamento claro com o contexto e objetivos originais de onde estes conceitos ligados à saúde do indivíduo surgiram e foram desenvolvidos. Na esmagadora maioria o seu estudo e desenvolvimento estiveram sempre ligados às diversas tradições contemplativas do mundo apostadas num caminho e prática espirituais.

A segunda tem a ver com a oferta. Na falta de uma compreensão adequada, qualquer pessoa fabrica a sua explicação, escreve um livro ou se torna mestre de alguma coisa em seminários e formações de fim de semana. Curso de professor de meditação? Uma semana e está feito. É preciso fazer a diferença face a uma competição cada vez maior e nada melhor que usar um conceito vago que não se entende para explicar um conhecimento que não se tem.

A terceira razão tem a ver com a procura. Não havendo informação adequada e uma oferta pouco ética, o elo mais fraco acaba sempre por ser quem procura ajuda a partir de uma posição fragilizada. Sobretudo quando o anzol é inteligente ao ponto para jogar com psicologia. Ninguém quer ser a carta fora do baralho, ou o ser vulgar que não consegue ver as roupas do rei em tecido invisível que só os dotados conseguem ver.

– Sente a minha energia?
– Sinto Sinto!
– Eu vejo a sua aura e vejo que é um ser muito especial.
– Mas se não sentir, não se preocupe. Nem toda a gente consegue, só alguns. Ainda lhe falta qualquer coisa para lá chegar. Qualquer coisa que eu tenho para oferecer.

A energia à muito que passou a ser uma metáfora da história do Rei vai nu, e o objetivo deste texto é tentar desmistificar um pouco o conceito. Como dizem os Ingleses, tirar o “myst” (nevoeiro) do “mystic”.

Para ajudar nessa tarefa, quero partilhar uma ferramenta que me foi passada por um professor de Dharma e que me tem ajudado a separar o trigo do joio, sempre que me é apresentada uma ideia que envolve normalmente um conceito fácil de se gostar mas difícil de se comprovar. A ferramenta implica a seguinte análise:

– Pode este conceito, esta ideia, esta teoria ser aplicada na minha vida de forma prática e torna-la melhor? Se não puder por muito bem que fique na montra, não tem grande valor prático.

O que é a energia?

No exterior assume muitas formas conhecidas e mensuráveis. Solar, Térmica, Eólica, cinética, elétrica, nuclear, elástica, etc. Independentemente da fonte e forma como é obtida, na física, a energia é a propriedade que deve ser transferida para um objeto para realizar um trabalho ou para aquece-lo. A unidade de energia é o joule, que é a energia transferida para um objeto pelo trabalho de movê-lo a uma distância de 1 metro contra uma força de 1 newton. Ela não serve para mais nada do que a derivação de aplicações práticas que ecoam do mesmo princípio fundamental que é o de realizar um trabalho.

No corpo a energia é o ATP. A molécula de Trifosfato de adenosina. A minha bioquímica está um pouco ferrugenta, mas em síntese a malta come, e no processo de digestão os nutrientes são decompostos nos seus elementos básicos.
A glucose e oxigénio são absorvidos num processo conhecido como respiração celular onde a glicose é quebrada na mitocôndria da célula. É formado um nucleotideo ligado a três fosfatos em cadeia sendo que a energia está nas suas ligações químicas, e obtida grosso modo no processo da sua quebra. Para que é usada? Para tudo e sempre que existe a necessidade de executar um trabalho, seja ele estudar, pensar, rachar lenha, contrair um músculo ou digerir o almoço. Tudo.

Não parece muito esotérico ou misterioso mas se pensarmos bem são processos que ocorrem dentro de nós, dos quais não estamos sequer conscientes ou temos um papel activo e que no entanto sustentam o que chamamos de vida.

E nas terapias não convencionais o que é a energia?

A pergunta torna-se relevante porque à partida tudo está coberto pelos conceitos de dentro e fora, e sendo que acabamos de definir o que é aceite cientificamente como energia no exterior e interior do corpo, onde é que se encaixam termos como meridianos, campo bio-energético, bio-energia, aura, vibração, energia curativa, etc?

É preciso entender que muitos destes termos são terminologias sinónimas entre si de ATP, ou de traços do seu rasto nas suas diversas manifestações, calor, movimento, electricidade, etc.
É sabido que o corpo humano é composto de 64% de uma solução salina chamada na medicina de soro fisiológico que é um bom condutor de electricidade. A solução salina é chamada na electrotécnica “solução electrolítica” que em contacto com as células nervosas, gera bioelectricidade química.

A cada batida do nosso coração produz-se uma corrente de um ciclo por segundo de um watt de potência elétrica dissipada. Deste modo podemos dizer que o corpo humano é uma máquina elétrica.

A manifestação dessa bio eletricidade é mensurável por exemplo num eletrocardiograma e é possível captar a sua imagem com aparelhos de medição específicos. Nesse sentido podemos dizer que temos uma aura, tal como uma lâmpada ou outro aparelho elétrico.

Outros termos são racionalizações inteligentes que aproveitam conceitos estudados, compreendidos, aceites universalmente e confiados como veículos onde se colam outros conceitos à boleia a fim de lhes conferir veracidade. Muitas das pseudo-ciências que brotam do movimento “New age” são inteligentes ao ponto de copiarem a natureza em associações de parasitismo onde a mentira se confunde com a verdade quando apresentada no mesmo cesto.

Tendo dito isto não existe uma teoria unificadora do conceito de energia no campo das terapias não convencionais. O que existe são milénios de estudo e prática sobre a forma de tradições médicas e contemplativas mais antigas que a de Hipócrates. Tradições com um corpo de conhecimento, estrutura, prática clínica com provas documentadas e que são acessíveis a quem se quiser dar ao trabalho de as ler nos seus contextos e não fora deles.

Embora a Medicina Tradicional Chinesa esteja hoje muito bem difundida, e massificada, grande parte do seu corpo de conhecimento foi estruturado para acomodar as inclinações culturais e intelectuais do ocidente. Isto significa apenas que conceitos como energia (Qi) que são mencionados na sua teoria e aplicados na acupunctura por exemplo, não são explicados de forma clara de forma a criar um entendimento prático. Em parte porque não fazem parte dos currículos e em parte porque quem ensina também não tem essa informação. Ela não migrou juntamente com o resto do corpo de conhecimento.

De certa forma é um paradoxo, pois foi no seio das sementes que viriam a ser conhecidas como a medicina Ayurvédica, Chinesa, e Tailandesa que conhecemos hoje (para citar alguns), que o conceito de corpo energético subtil foi estudado, compreendido e utilizado com o objetivo de facilitar ao indivíduo o progresso espiritual necessário para a união (yoga) do relativo com o absoluto, ou para dissolver o ego na realização da natureza ultima de todos os fenómenos. Claro que cada tradição, religião e filosofia abriga uma versão própria deste modelo fundamental, conferindo-lhe as diferenças de visão e terminologia que o encaixam na sua doutrina.

A Medicina tradicional Tailandesa é Budista. Toda ela. Está mais próxima por isso da medicina Tibetana do que da medicina Chinesa ou Ayruvédica como é frequentemente repetido. Isso tem um explicação histórica de fácil entendimento mas que não vamos abordar agora. Seja como for, embora não seja necessário ser Budista para estudar medicina Tailandesa, uma boa compreensão dos ensinamentos Budistas são necessários, e eles estão de tal maneira interligados que quanto mais aprofundamos o estudo na MTT mais eles aparecem.

São muitos os sistemas médicos que utilizam diferentes variações dos elementos na sua composição. Podemos encontra-la nas medicinas tradicionais ao longo da história como a Maya, Grega, Chinesa, Tailandesa a usam ou usaram. Na Medicina tradicional Tailandesa eles estão na sua base juntamente com as linhas Sen, que não são o mesmo que os meridianos chineses.

São quatro os elementos na MTT:

Terra
Água
Fogo
Vento

Às vezes surge ainda um outro elemento, o espaço, mas vamos deixa-lo de lado porque tem outras implicações.

A experiência dos elementos, mais do que os elementos em si, assume uma grande importância pois é ela que serve de interface para o entendimento da anatomia e fisiologia. Assim, a experiência do elemento terra traduz-se em solidez, a do elemento água por coesão e por ai fora.

A experiência do elemento que mais nos interessa analisar aqui é o elemento Vento. Ao contrário do habitual o elemento menos denso não é o ar. Isto porque a experiência do elemento ar não é a mesma do elemento vento. O vento traduz a experiência mais importante de todos, o movimento.

O vento (movimento) ganha assim uma expressão singular pois sabemos que a energia cinética de um objeto é a energia que possui devido ao seu movimento.

Isto leva-nos a outra grande teoria que está na base da MTT. As linhas Sen.

Na maior parte dos cursos de nível de entrada na Tailândia dados essencialmente a turistas ocidentais é ensinado que as linhas Sen são estruturas metafisicas, invisíveis ou puramente espirituais. Embora isto seja na maior parte verdade, é uma explicação abstracta que leva frequentemente a alguma confusão pois as pessoas imaginam tubos invisíveis onde ventos invisíveis são soprados.

Durante alguns anos vivi com esta explicação, que sinceramente nunca teve muita utilidade para mim enquanto terapeuta de massagem. Foi então que um dia me foi apresentada uma explicação que foi como uma pedrada no charco. As ondas de impacto abanaram o meu entendimento acerca do assunto e a visão que ganhei mudou completamente a minha abordagem teórica e prática.

– As Sen são caminhos físicos pelos quais o movimento ocorre no corpo.

Linhas invisíveis nos quais a energia passa, não são mais do que caminhos físicos pelos quais o movimento ocorre no corpo.

Assim se pensarmos em impulsos elétricos, circulação, contratação muscular, trocas químicas nas sinapses, tudo isto são sinónimos de movimento que é a experiência do elemento vento.

Assim, quando aborda as linhas Sen o trabalho do terapeuta é manipular o elemento vento de modo que o movimento possa ocorrer libertando as passagens.

Para um terapeuta de massagem por exemplo esta é a diferença entre uma teoria oca incapaz de se manifestar em resultados práticos e conhecimento de utilidade prática que podemos colocar ao serviço de pacientes.

Existem depois vários tipos de Sen.
As Sen Principais ou grandes compostas pelas artérias principais, nervos, canais linfáticos, tendões e ligamentos.
As Sen Menores compostas por artérias mais pequenas que derivam das artérias principais.
As Sen invisíveis que são caminhos e ligações de hormonas, neurónios, neurotransmissores e enzimas. O trabalho manual pode ter algum efeito sobre elas, tal como a produção de endorfinas mas normalmente são abordadas com ervas e dieta.
As Sen Subtis que são os caminhos dos ventos subtis. Caminhos etéreos, psicológicos e de pensamentos e emoções nos quais as intenções tem um papel e em consequência o Karma (outro grande palavrão) é criado.

Todas elas traduzem níveis diferentes de movimento aos quais podemos chamar dentro deste contexto energia enquanto força necessária para gerar um determinado tipo de trabalho, seja ele mecânico, químico ou emocional.

Se pretendemos um entendimento acerca de energia que pode ser trabalhado no campo prático e uma explicação clínica razoável para dar a quem procura ajuda terapêutica, este deve ser o contexto oferecido.

Do ponto de vista terapêutico e dependendo do nível que estamos a abordar, a energia pode ser manipulada com agulhas, influenciada quimicamente com dieta ou ainda trabalhada com meditação para um melhor entendimento do que se passa “dentro de casa”, e consequente mudança de percepção que permita um modelo mais hábil da gestão das nossas emoções.

Ela não serve para decorar a montra dos nossos serviços, tornando-nos numa espécie de Gandalf das terapias não convencionais dando às terapias qualidades que elas não tem.

Tendo dito isto, é importante mencionar a altíssima probabilidade da existência de outras facetas ainda por descobrir de dimensões que nos animam que influenciam a nossa qualidade de vida e que são mutuamente influenciadas pelo que fazemos, dizemos ou pensamos.

Há 120 anos não podíamos falar de seres invisíveis (vírus e bactérias) que influenciavam a nossa saúde, porque eram desconhecidos mas nem por isso inexistentes. Do mesmo modo também hoje apesar de suspeitar das sua influência, não devemos trabalhar com conceito demasiado vagos, dando a entender por má-fé ou ingenuidade ter um domínio da sua aplicação prática.

Um possível exemplo dessas dimensões desconhecidas pode por exemplo traduzir-se no modo com as manifestações climáticas se intensificam em tsunamis, furacões, tremores de terra, fogos e outros desastres naturais em resultado da nossa acção infantil e irresponsável sobre os outros seres e meio ambiente. Se levamos a sério a a teoria por trás do Feng Shui e a possibilidade desta prática influenciar a “energia da nossa casa”, então está na hora de pensarmos seriamente enquanto seres humanos no Feng Shui do planeta. A nossa única casa no cosmos até hoje. Já agora, Feng Shui significa vento e fogo.